Luis Ferreira

Luis Ferreira

As exigências servidas à mesa

As intenções de Trump, antes de tomar posse e depois de ser Presidente dos EUA, quanto à paz na Ucrânia, foram um falhanço. De uns dias passou a semanas e depois já não dá certezas nenhumas porque as não tem. Na política nada é certo e nada é fácil. Mas isto já Trump devia saber. O quero, posso e mando, nem sempre funciona. Mas parece haver exceções lá para os lados de Moscovo. Por enquanto, Putin ainda pode dizer quero, posso e mando.

Prova disso mesmo é o controlo constante sobre o que à mesa se deveria discutir entre os presentes para chegar a um efetivo cessar-fogo entre a Ucrânia e a Rússia. Em cada reunião entre os interessados, mais uma proposta é apresentada por Putin, que vem alterar o alinhamento da reunião. Ele não quer discutir a paz nem o cessar-fogo. Ele quer protelar a situação enquanto continua a bombardear o território ucraniano. Perante isto, Trump, ainda não chegou à conclusão que Putin controla tudo e que os EUA não têm voto na matéria.

Afinal o que conseguiu Trump com estes encontros em prol da paz? Nada. O suposto cessar-fogo, que o não é na realidade, só interessa a Putin, devido à possibilidade de escoamento dos cereais russos pelo mar Negro que, em princípio, não haverá ataques nesse espaço. E uma coisa é certa: Moscovo não vai atacar nada no Mar Negro pois estaria a prejudicar-se, já que ele é controlado pela Ucrânia. Assim, tem todo o interesse em manter aí o cessar-fogo. Esta é a única vertente válida das tréguas.

O adiamento interminável das discussões que estão na mesa das negociações, de pouco valem, já que Putin envia sempre mais uma exigência para que se percorra o caminho para o cessar-fogo real. Não é caminhar para a paz. Não. Putin não quer a paz, pelo menos não sem antes obter o que pretende através das exigências que vai pondo em cima da mesa.

Trump está a ser completamente embrulhado por Putin e o que ele pretende, não é assunto de discussão. Putin quer discutir o que lhe convém e isto é muito vasto. Mas, aos poucos, Trump vai perceber que está a ser levado pelas ondas russas e se vai afastando cada vez mais da praia de areias brancas onde deveria residir a paz ucraniana. Estão longe as férias.

O esforço que a UE está a fazer com tantas reuniões, também não está a resultar como deveria e para Putin, isso nem é assunto com que se deva preocupar. Nas suas declarações ocasionais, nem sequer menciona a Europa. As preocupações da Europa vêm tarde. Demasiado tarde. Claro que é sempre tempo para se acautelar a segurança europeia e agora cada vez mais. Mas isto demora muito tempo. Não é para amanhã e a guerra já cá está.

Trump é um homem de negócios e só. De político tem pouco. Parece demasiado inocente ao lado de Putin, ao aceitar certas exigências, sem sequer estar presente, confiando nos que envia para a cabeça do touro, sem ter a certeza de que são capazes de o segurar pelos cornos. Não são. Acabam por discutir tudo menos o que deveria estar em cima da mesa. Putin serve, assim, à mesa, as suas exigências para que se entretenham com elas e não discutam o prato principal. São as entradas que acabam por tirar a fome para o que se segue.

Entretanto, continuam a bombardear as cidades ucranianas, deixando de lado o espaço energético de um lado e de outro, pois Putin também quer evitar perder mais centrais de energia, especialmente de petróleo e derivados, os quais já vai tendo necessidade de importar. Só por isso. As aldeias e pequenas localidades, vai atacando sem dó nem piedade para mostrar que está a toda a força e que, mais tarde ou mais cedo, a Ucrânia terá de se render ou sair da guerra com perdas bastantes. Será assim? O que fará Trump para evitar tal disparate?

Putin está a passar de inimigo a parceiro de negócios e compincha de Trump e este não se dá conta do caminho que está a percorrer. Trump está a var o fosso que o vai engolir. A população americana já está contra as suas propostas. Cerca de 60% dos americanos não aprovam a política que ele está a seguir no que se refere à Ucrânia, especialmente ao abandono da defesa que os ucranianos esperavam. É por isso que a Europa está a tentar substituir os EUA nesse aspeto, mas não é fácil, porque há tecnologias que só os EUA têm e que permitem a Ucrânia defender-se melhor. A verdade é que Trump está a ficar farto das exigências que Putin põe em cima da mesa cada vez que se juntam para negociar o cessar-fogo. Putin diz que este já começou, mas ele ainda não parou de atacar a Ucrânia. Cumprir acordos nunca foi apanágio dos russos e aqui é mais um dos casos que o prova. Trinta dias de cessar-fogo, mas quando começa? Com começo dia 18 de março, como diz Putin, só faltam mais uns dias para recomeçar a guerra a sério e mostrar a Trump que está a ser comido de cebolada, sem dar conta. Em cima da mesa está tudo menos o que deveria estar. É sempre assim. Zelensky tem razão e tem … medo. A comida não se lhe engole.



Partilhar:

+ Crónicas